Qua, 20 de dezembro de 2017, 15:02

BILINGUISMO/DNL (disciplina não linguística) CODAP/UFS
BILINGUISMO/DNL (disciplina não linguística) CODAP/UFS

Projeto de Ensino "BILINGUISMO/DNL (disciplina não linguística) CODAP/UFS"


Coordenador do projeto

Ricardo Costa dos Santos

Professores Envolvidos

Marília Menezes Nascimento

Christiane Ramos Donato


O estudo de uma língua estrangeira é um elemento fundamental para formação do indivíduo. É conhecer a si mesmo e sobre um mundo plural, marcado por valores culturais diferentes. Como bem elucida os Parâmetros Curriculares Nacionais/PCNs (BRASIL, 1998), documento de referência para organização do currículo da Educação Básica, aprender um novo idioma contribui para autopercepção do estudante como ser humano e como cidadão. Dessa maneira, a escola é um espaço ideal para realização de uma experiência cultural e linguística.

O ensino de uma disciplina não linguística (Discipline non linguistique/ DNL) é uma experiência bilíngue. O idioma materno, bem como a língua estrangeira serão utilizados em sala de aula, sendo isso um elemento fundamental para comunicação.

Bien sûr que oui, la classe bilingue doit être… bilingue. Une didactique de l’alternance des langues est nécessaire dans ces classes. Il convient d’apprendre à maitriser cette alternance en construisant un cours constitué de séquences tantôt en L2 tantôt en L1 (des alternances séquentielles à moduler selon les sujets et les niveaux en L2 des élèves), sans se culpabiliser par ailleurs d’utiliser des micro-alternances autant que nécessaire, afin de faciliter compréhension et communication (ADEB, 2011, p. 12).

Por sua vez, o professor bilíngue é um novo tipo de professor, pois seu trabalho é ensinar parte de sua disciplina, seja ela Química, Física etc., em uma outra língua que não é a sua, nem a dos estudantes, nem a língua de escolaridade do país. Ou seja, o ensino bilíngue se define pelo ensino de disciplinas comuns ao cotidiano da escola em uma língua estrangeira. Neste projeto, as disciplinas terão um eixo comum entre elas, estabelecendo uma ação interdisciplinar.

Como fora afirmado, o espaço escolar é lugar ideal para uma experiência singular de construção de significado. Pelo domínio de uma base discursiva, o estudante pode ampliar, quando se fizer necessário em sua vida futura, todo o conhecimento adquirido numa classe bilíngue.

O ensino de “disciplina não linguística” em uma língua estrangeira permite ao estudante essa experiência. A ADEB - Association pour le Développement de l’Enseignement Bi/plurilíngue, confirma tal premissa ao elencar as vantagens dessa aprendizagem:

le développement cognitif, en termes aussi bien de flexibilité mentale, de capacités de résolution de problèmes, d’abstraction, de pensée divergente, d’attention sélective que de compétences métalinguistiques- le développement social par l’acquisition d’une sensibilité communicative et d’une compétence pragmatique plus étendues, d’attitudes plus ouvertes envers l’autre, de plus grandes capacités de décentration (ADEB, 2011, p. 21).

Somando-se a uma nova percepção de mundo, a compreensão em uma língua estrangeira ajuda no desenvolvimento integral do letramento. A leitura tem função primordial na escola e aprender a ler em outra língua colabora no desempenho do estudante com sua língua materna. Especificamente no ensino fundamental, foco do nosso projeto, os PCNs destacam que esse conhecimento não é só um exercício intelectual em aprendizagem de formas e estruturas linguísticas em um código diferente; é, sim, uma experiência de vida, pois amplia as possibilidades de se agir discursivamente no mundo (BRASIL, 1998, p. 20-38).

À vista disso, uma turma bilíngue não é apenas a afirmação de cultura francófona, mas a possibilidade do conhecimento a partir de uma outra cultura; é proporcionar ao estudante do Colégio de Aplicação/UFS, conhecimento de conceitos culturais e científicos associados à experiência da diversidade cultural. A inserção de uma outra língua auxilia na percepção de mundo diferenciada, uma vez que nos relacionamos com o mundo através da linguagem. Acrescentando novas vivências linguísticas pode-se ampliar o referencial simbólico dos estudantes e sua construção da realidade que vivenciam (EAGLETON, 2005). Outro pressuposto crucial para a aprendizagem de uma língua estrangeira é a necessidade da continuidade desse ensino. É preciso que haja seguimento no trabalho para atestar os resultados alcançados.

No processo aqui proposto, no qual o estudante se engaja em um mundo simbólico de modo a agir no mundo social a partir de um eixo específico, a implantação de uma turma bilíngue corrobora com a ideia de educação do Colégio de Aplicação. Além disso, permite ao jovem estudante, descobrir um universo cultural entre a arte, a ciência e as práticas corporais.

Justificativa

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe é a única escola em todo Estado de Sergipe cuja língua francesa faz parte do currículo; dessa maneira, cada projeto envolvendo o ensino desse idioma ressalta a sua importância para escola e para os caminhos para a educação pública no Estado. Contudo, a inserção do bilinguismo francófono no Codap/UFS, caracteriza-se não apenas como uma atividade de afirmação, mas como uma atividade interdisciplinar.

Cabe acrescentar que os Colégios de Aplicação das Instituições Federais de Ensino Superior têm como finalidade desenvolver, de forma indissociável, atividades de ensino, pesquisa e extensão com foco nas inovações pedagógicas e na formação docente (BRASIL, 2013). Assim, esse projeto está de acordo com os objetivos da escola, pois uma turma bilíngue serve de campo de observação, pesquisa, experimentação, demonstração, desenvolvimento e aplicação de métodos e técnicas de ensino diferenciadas no campo do ensino da língua francesa, da formação básica e da formação de professores. Igualmente proporciona a prática de ensino aos estudantes do curso de Licenciatura, possibilitando a pesquisa científica e a produção de conhecimentos no campo do ensino bilíngue.

Objetivos

Geral

Implementar o ensino bilíngue no Colégio de Aplicação/UFS e analisar a metodologia de ensino desenvolvida.

Específicos

Proporcionar ao estudante o mergulho em uma nova cultura;

Contribuir para autopercepção do estudante;

Incentivar a iniciação científica nas primeiras séries;

Promover uma atividade interdisciplinar na escola;

Criar espaços de prática e formação docente para o ensino bilíngue.

Etapas

O projeto será dividido em dois momentos. O primeiro momento será a formação do professor DNL (disciplina não linguística). O segundo será aplicação, momento que a turma piloto será iniciada com três disciplinas. Nessa primeira etapa de formação, os professores participantes estudarão a língua francesa para obter a competência mínima para começar as atividades, ou seja, nível B1. Ainda nesse processo, serão ofertados ateliers em língua francesa para que esses professores possam desenvolver ainda mais sua competência linguística. No segundo momento, os professores organizarão os conteúdos a serem ministrados, realizarão ateliers temáticos e iniciarão a primeira turma bilíngue do CODAP.

Das disciplinas

O curso terá como base três disciplinas que serão orientadas por um eixo temático: cultura, corpo e ambiente. A partir desse tema, os estudantes terão aulas de Língua Francesa/FLE, Práticas Corporais e Iniciação Científica. Nos primeiros meses, a disciplina foco será o francês, pois será o momento de aquisição desse novo idioma. Contudo, os professores vão trabalhar juntos. Após essa introdução, as outras disciplinas serão incorporadas: “Le professeur de DNL doit travailler les spécificités lexicales, syntaxiques de la L2 dans sa discipline” (ADEB, 2011, p. 12).

As disciplinas ministradas serão: Iniciação Científica, Cultura Corporal e Língua Francesa. A turma terá aula no horário oposto, sendo realizada em um dia na semana, com carga horária de 02 horas.

Iniciação científica/ Ciências-Biologia

Compreendendo o papel das instituições de ensino como geradoras e difusoras do conhecimento, sobretudo as universidades, torna-se essencial o desenvolvimento de projetos que valorizem o contexto do espaço-tempo em que se situa, com a finalidade de formar indivíduos comprometidos com a perspectiva de buscar e gerar conhecimento, e obter uma integração maior com a sociedade, seja através de programas de intervenção social ou trabalhando através de pesquisas aplicadas com o propósito de resolver problemas específicos. Nesse panorama, a disciplina de Iniciação Científica busca atuar tornando o processo de aprendizagem mais eficaz e contribuir com o desenvolvimento cognitivo, psicossocial e físico dos discentes, de maneira que esses construam e exercitem habilidades e competências que os auxiliarão no seu autoconhecimento, na convivência e atuação social. A iniciação científica nas séries iniciais possibilita a formação de senso crítico e estímulo da curiosidade e criatividade criadora de novos objetos a serem conhecidos.

A escola é um espaço que possibilita a integração de saberes dos cientistas, estudantes, famílias, comunidade, mídia e profissionais da educação, o que auxiliaria no desenvolvimento de uma disciplina de iniciação científica para crianças e adolescentes. Neste espaço formal de educação oportuniza-se o “educar por meio da construção de conhecimentos resultantes do confronto dos diferentes saberes”, tornando-se um espaço de referência (BRASIL, 2009, p. 15).

Para a formação de cidadãos críticos, autônomos e conscientes de seus direitos e deveres, há de se buscar uma prática participativa, de maneira que as orientações e processos sejam coerentes com a idade e série dos estudantes. O facilitar a aprendizagem se dará para que o estudante se aproprie do conhecimento científico a respeito de temas de seu interesse relacionados à cultura, corpo e ambiente. Para tanto, pode-se fazer uso de temas de trabalho que envolvam a aprendizagem utilizando contextualização sociocultural, na intenção de potencializar a aprendizagem ao sistematizar o conhecimento de forma mais concreta e amparar as curiosidades e dúvidas dos estudantes (BRASIL, 1998).

Nesse cenário, o ensino de Iniciação Científica objetiva formar cidadãos críticos, atuantes e participativos, capazes de pensar por si próprio, além de conhecedores dos conceitos importantes das Ciências. Essa disciplina pretende possibilitar ao estudante contextualizar as descobertas e produzir vivências e instigá-los para a experimentação e aquisição de novos conhecimentos.

Cultural Corporal/ Educação Física

No projeto de ensino bilíngue a disciplina Cultura Corporal tem como propósito tratar de diversas práticas corporais produzidas e apropriadas historicamente por diferentes grupos sociais francófonos de maneira dialógica com as manifestações corporais produzidas e incorporadas pelo Brasil, em especial na região nordeste e no estado de Sergipe, considerando as interinfluências pertinentes ao contexto de globalização e ações de dominação construídas pelo processo de colonização. Assim, manifestações como danças, lutas, esportes, jogos e brincadeiras serão estudadas na classe bilíngue a partir de uma perspectiva multicultural crítica e interdisciplinar.

Conforme Neira (2007), a tematização das práticas corporais numa perspectiva multicultural crítica pode compor o currículo de duas maneiras: primeiro, articulada aos saberes das demais disciplinas e fazendo parte de projetos comuns; e segundo, ganhando o status de tema central de um projeto específico do componente curricular Educação Física. Nessa proposta de ensino bilíngue, trabalharemos na primeira perspectiva. No decorrer do percurso na turma bilíngue, os estudantes terão oportunidade de travar contato e aprofundar os conhecimentos relativos à cultura corporal, produzidos por distintos grupos que compõem a sociedade na qual estão inseridos, como também em outras sociedades, especialmente aquelas francófonas. Isso permitirá não só descobrir novas dimensões de muitas experiências, como também, revelará novas formas de ver a cultura corporal.

Isso significa que, por meio da disciplina Cultura Corporal, deve-se estudar as diferentes manifestações da cultura corporal de forma contextualizada, acompanhada pela participação de representantes dos grupos que as recriam, desenvolvem e praticam. Nada que se assemelhe à perspectiva de “visitas” descontextualizadas a diferentes manifestações da cultura corporal. Nesse sentido, a prática pedagógica multiculturalista crítica busca entender a natureza específica das identidades e diferenças, mas que também aprecie a adesão comum aos princípios de igualdade e respeito à diversidade no estudo da cultura e na prática social dos sujeitos. A intenção é reconhecer e problematizar as categorias que constroem as representações das identidades para que os estudantes possam compreender a diversidade cultural e os significados das diferenças que separam os interesses dos indivíduos de grupos diversos nas diferentes culturas.

Nas escolas, a apreciação pela diferença e por seus benefícios políticos e cognitivos pode se manifestar pela apresentação de distintos pontos de vista entre os estudantes e professor e da forma como expressam esses posicionamentos particulares perante as coisas do mundo. À medida que progridem no currículo escolar, por meio da sucessão de atividades, todos ficam expostos a um número cada vez maior de vozes divergentes, o que termina por conduzi-los a outras formas de verem as coisas. Somente o esforço de compreender os esquemas sociais daqueles que pensam e agem de modo diferente possibilita a descoberta dos próprios sistemas de crenças e preconceitos.

Segundo Neira (2007), o fomento de uma postura multicultural crítica envolve tematizar ao longo do percurso escolar as práticas corporais, histórias, biografias, formas latentes e manifestas de dominação e regulação, de resistência e luta, a partir do ponto de vista de diferentes grupos sociais e culturais, de modo que esses conhecimentos alcancem assim, a configuração de oficial e desafiar as perspectivas, crenças e metáforas estruturais do currículo pautado na cultura hegemônica. Isso possibilitará o entendimento e valorização da diversidade de práticas corporais brasileiras e francófonas, como também entre aquelas entre os diferentes países francófonos. O que também viabiliza reconhecer relações de desigualdade e preconceitos entre esses países que se manifestam nas práticas corporais e em como elas aparecem no cenário social.

Esse processo de identificação estimula estudantes, professores e comunidade a refletirem sobre sua cultura e a cultura do outro, sua própria vida e a vida do outro, a partir daí, desenvolverem certa capacidade de interpretar as relações sociais e maior interação nesse mundo globalizado.

Dos estudantes

Apesar de não haver contraindicação, a Association pour le Développement de l’Enseignement julga interessante começar uma turma bilíngue pelo que na França se chama escola elementar (ADEB, 2011, p. 11). Em nosso contexto, o projeto iniciará com uma turma de no máximo 20 estudantes e no mínimo 10. Os estudantes serão dos 6° anos. A primeira turma se constituirá a partir do interesse do aluno, pois não será de caráter obrigatório, mas complementar ao currículo escolar, constituindo uma proposta de educação integral.


Entidade Financiadora

Embaixada da França


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Atualizado em: Sex, 26 de janeiro de 2018, 17:57
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